Dúzia


O jazz da lua
Maio 26, 2009, 11:21 pm
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miles

Estava na casa de amigos, em uma reunião pequena de beber e falar. Fui ao terraço fumar e lá estava o telescópio, resolvi investigar o céu. Quando terminei de focar a lente, sem ter muitas expectativas ela surgiu, imensa, com suas crateras absolutamente nítidas, formando uma imagem muito diferente da lua que via a olho nu. O brilho ondulante da lua foi a segunda coisa que reparei, não sei se pela minha inexperiência no manejo do equipamento ou pela massa de gases que poderia turvar a luz da lua na imensa distância que nos separa dela.
Em uma fração de segundos pensei uma quantidade absurda de coisas, como o fato de ver pela primeira vez, em incontáveis frames por segundo, uma imagem tão familiar de fotos e vídeo, agora ao vivo e a cores diante dos meus olhos. Pensei também nas partículas de luz, que viajaram uma distância absurda para acertar meu globo ocular, formando aquela imagem sublime. A mesma luz que me atingia durante o dia, agora a lua a rebatia suavemente, transformando a luz exagerada do sol, no elegante jazz da lua. Logo veio o pensamento da luz das estrelas, as incontáveis particulazinhas que viajaram milhares de anos até me atingirem. Por um instante imaginei que as estrelas – e principalmente a lua – me atendiam exclusivamente. Recebi essa energia extraterrena com uma explosão de euforia, comecei a perder a gravidade e me sentir como se estivesse flutuando na imensidão do vácuo espacial, boiando entre as estrelas. Quando tirei os olhos do telescópio voltei à realidade, me sentindo um idiota perante aos amigos, que quando viram a lua pelas mesmas lentes não demonstraram uma fração da emoção que senti vendo aquele astro. A infantil descoberta da lua foi uma das emoções mais intensas da minha fase adulta.



A secretária
Abril 9, 2009, 6:00 pm
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banheira
Alberto tem 35 anos. A mais de cinco ele tenta tirar sua ex-noiva da cabeça. Fez ioga, entrou para um clube de tiro, colecionou selos e comprou um passarinho, mas de nada adiantou. Alberto ama incondicionalmente Marta. Cada célula do seu corpo repete incessantemente: “Volte Marta, Marta volte…”. Alberto é o último dos românticos inconformados.

Alberto após a segunda dose de uísque liga mais uma vez para Marta:

- Alô, aqui é a Marta e essa é a minha secretária eletrônica. No momento não posso atender seus telefonemas patéticos pedindo para voltar. Alberto, tenha piedade, já fazem cinco anos! Falei tantas vezes… EU NÃO QUERO VOLTAR! NÃO QUERO QUE VOCÊ FIQUE LIGANDO PARA CÁ!

Voz robótica: – Deixe seu recado após o bip. 

- Bip!

- Alô, Marta? – uma pausa e um suspiro.

- Oi Marta, eu sei que você esta aí!

- Ok, Marta. Alô? Não me faça de bobo!

- Amor? Você não está aí mesmo?

- Eu ouvi um barulho na linha.

(breve momento de silêncio)

(ruído na linha) 

– Alô, seu Alberto?

- Sim sou eu, quem fala?

- É a Isaura seu Alberto. Dona Marta não está em casa, como ouvi o senhor na secretária resolvi atender… O senhor quer deixar algum recado?

Alberto irritadíssimo: – Dona Isaura, eu estava justo fazendo isso quando a senhora interrompeu meu recado. 

Isaura com sua voz de pobre velinha: – Sabe que é seu Alberto, dona Marta pediu pra não deixar o senhor horas na secretaria eletrônica. Ela me disse que o senhor fica muito tempo no telefone, gastando toda a fita da secretária, aí ninguém mais pode deixar recados e dona Marta disse que…

- Pro diabo o que Marta disse, veja bem dona Isaura, esse é um problema meu e da sua patroa. Eu proíbo a senhora de interferir na nossa vida, isso é um ABSURDO! 

- Mas seu Alberto a dona Marta falou que… 

- Chega! Não quero saber a bobagem que a Marta lhe disse, agora não me atenda mais este telefone que quero gravar o meu recado! 

- Me desculpe seu Alberto. – Termina Isaura num tom choroso.

Então Alberto pega outra dose de uísque cowboy, acende um cigarro e liga novamente.

- Alô, Marta, porque você não me dá mais uma chance? Eu sinto tanto a sua falta, porque você resolver namorar esse idiota do Emilio? Ele não te ama nem um terço do que eu te amo. Você já me falou que ele é bonitão, inteligente, elegante, bom de cama, rico e simpático, mas e de que adianta tudo isso se não for um amor verdadeiro? Ontem passei a noite em claro olhando as fotos da nossa viagem para Florianópolis, você estava linda naquele vestidinho rosa na rodoviária, feliz, aquela cidade quente, o que deu errado? Por Deus, íamos nos casar! Lembro-me de tudo com muito amor, eu sei que você se desinteressou por mim, mas fazer o quê? Eu ainda te amo! São cinco anos que não olho para nenhuma mulher, eu me masturbo pensado no seu cheiro, sua voz chiada, seu vestidinho rosa! Oh! Eu juro por Deus Marta, se você não voltar para mim eu me mato, juro, dessa vez é pra valer, você vai morrer de remorso. Eu te amo Marta, pra sempre te amarei!

Alberto coloca seu CD do Renato Russo em Italiano, esquenta a janta em lágrimas, dá comida ao passarinho, faz a barba e prepara a banheira. Afogando em pensamentos, após o banho, se olha no espelho, vê o peso da dor e do tempo no seu rosto: ”Cinco anos deprimido. Se gastando de amores por Marta, e ela nem aí. Tenho que tirar Marta da cabeça, conhecer outra mulher, chega!” Fala em um tom seguro, vendo sua boca pronunciar cada sílaba naquele espelho de borda laranja, faz com que a frase fique gravada no seu consciente: ele está decidido. Alberto pega sua escova de dente que esqueceu na prateleira dos xampus, em cima da banheira, escorrega no tapete, bate com a cabeça na quina da banheira e cai inconsciente na água. O sangue corre aos borbotões, misturando-se com a água ensaboada. É o fim do último do romântico inconformado.



A barata e o lunático
Março 17, 2009, 9:56 pm
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a_barata_e_o_lunatico

Estranho desconforto gera tua existência ao meu ser. Como podes tu, ínfimo ser, de estatura mínima, ser mais contente do que eu? Detenho uma inteligência superior, que questionada é, pelos que não me compreendem. Meu desejo é vir a ser um dia como tu, pequeno habilidoso, para em cantos escuros esconder-me da fúria dos que não reconhecem a sanidade do meu intelecto. Sei que como eu, tu és repudiado, caçado e injustamente condenado, ainda assim, mais sortudo que eu és tu. No abrigo de uma mente em que nada passa além de devorar lixo e voar para pavor de damas delicadas, tua ignorância te priva de confusão mental. Eu sei, um dia esta maré azul de dor irá se acalmar. Enquanto esta data tarda, manterei contato com vós: serás o único informado de meus verdadeiros sentimentos. Tu como os outros não sabes me interpretar, porém, mais nobre que eles és, pois mesmo que não me endendas, não me julgas inaceitável ou tenta me lesar.



Mais estudos
Março 11, 2009, 1:44 am
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manequim
Tirem as crianças da sala! acima uma estudo do meu manequim. Abaixo um nú feminino. ambos nanquim. Acompanhe meus estudo no flickr, tem mais coisas lá.

mulher_nua



Bizarre Moment
Fevereiro 17, 2009, 11:29 pm
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Sim, mais um estudo com nanquim. O efeito no computador não é o mesmo que no papel, mas vamos lá. Este deu MUITO trabalho (o desenho tem 24×18cm) mas o resultado ficou no tom desejado: “Bizarre Moment”.

me_and_patrick

A sua esquerda de bigodes e com crazy eyes o sr. Patrick M.
A sua direita de bigodes e  com freak eyes o sr. Eduardo L.



Desenhando
Fevereiro 16, 2009, 3:57 pm
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garotas_em_buzios2

Resolvi levar mais a sério meus estudos de desenho. Sempre que sobrar um tempo, ou eu achar que vale a pena, vou colocar no dúzia a evolução desses estudos. Acima “as garotas em Búzios” e abaixo um estudo com lápis de sombra.

estatua



Da vez que bebi com um mendigo
Janeiro 27, 2009, 10:46 pm
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Mendigos

Estava outra vez tentando passar por mais inteligente do que realmente sou. Em pé, no lado de fora de um bar lotado. Minha platéia desta noite eram algumas garotas e um conhecido. Sempre gostei de cantar de galo pelas ruas de Porto Alegre. Consigo me lembrar de tudo, pois raramente tenho amnésias alcoólicas.

Foi no ápice desse meu discurso egocêntrico e mentiroso que um mendigo surgiu; interrompendo-me não sei por quê. Mesmo próximo, o homem havia passado despercebido pela minha visão espacial embriagada, e também pela minha ânsia de conquistar os sorrisos e a simpatia das garotas.

O mendigo balbuciou alguma coisa diretamente para mim, não entendi uma palavra. Pedi licença ao meu grupo e me sentei ao lado do homem, para assim fita-lo nos olhos e captar seu recado com maior clareza.

Sentando no chão com o mendigo, perdi, quase que de imediato, o status que havia conquistado entre os meus. Logo se afastaram para não se contaminarem com meu estigma e excentricidade.

Já no mesmo nível vertical que o dito cujo, fico atento ao que o esfarrapado tem a dizer. E para minha surpresa e deleite, o mendigo começa a se vangloriar ferrenhamente; exato o que eu fazia antes da interrupção dele. Um discurso muito lúcido, mas sem nove horas.

Narrou com detalhes grosseiros os tempos em que trabalhava em um banco, época anterior as suas aventuras nas ruas. Contou-me se suas idas à praia com a família; de seu antigo apartamento; das tralhas que empilhava lá dentro; de seu cachorrinho; de sua esposa histérica; do seu punhado de amigos que desrespeitavam suas mulheres e de outro punhado de amigos que brigavam assistindo futebol.

Seu discurso mudava de tom com frequência, por vezes narrava os acontecidos com um certo orgulho melancólico, variando levemente para lamúrias amuadas. Queria provar que já fora igual a mim ou a qualquer um; mas que hoje, vivendo nas ruas, é melhor que todos nós.

Acreditava ser superior a medíocre classe média, aos ricos, aos pobres, por abandonar toda a mesmice e a prisão que a sociedade representa. Dizia-se feliz por ver liberdade longe dos padrões.

Deixou sua vida standard completamente para traz, vivendo hoje o que dá para chamar de “sonho de herói do cotidiano urbano”. Escondendo sua verdade atrás de uma fantasia de imundice para vencer a hipocrisia pegando-a de surpresa.

Balançava o tempo todo – enquanto seguia com seu discurso delirante – uma garrafinha de água mineral com um líquido amarelado dentro. Eu já cansado de ouvir todas aquelas besteiras não pude segurar a curiosidade e perguntei:

- Que troço é esse que tu bebe nessa garrafinha?

Ele me respondeu fitando os meus olhos com firmeza, mas com um sorriso naquele rosto sujo.

- Experimenta! – Disse ele oferecendo a bebida.

Enquanto eu degustava a bebida ele me explicava que era cachaça oro, e sempre que conseguia um trocado, reabastecia a garrafa em um armazém logo ali.
Depois do drink, disse meu nome a ele, que fez o mesmo, então apertamos as mãos e nos despedimos.

O Grupo me aceitou de volta, torceram um pouco o nariz no início, mas logo se esqueceram tudo e me trataram como um igual.



Diário de uma nota só
Outubro 29, 2008, 12:45 pm
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Primeiro dia que escrevo no meu diário de uma nota só.

Escrevo de forma temporal, vou pensando e vomitando no computador todo o que surge, de forma quente e apaixonada, sem pensar muito. Sou muito mais inventivo quando escrevo acompanhando a velocidade e a linearidade das minhas idéias. Acredito que deve ser assim um diário.

Vou desenrolando no fluxo das vozes que falam na minha cabeça, assim escrevo o que penso precisamente demarcado no tempo e no espaço.

O problema é que só entendo o que essas vozes querem realmente dizer quando elas se calam na minha mente e posso, finalmente, pensar e compreender o que elas disseram.

Os fatos esfriaram e mostram sua real importância. Um mês depois, duas horas ou uma semana, nunca sei quanto tempo vai levar para a poeira sentar e chegar o momento de reescrever o diário.

É no silencio gelado da minha cabeça objetiva que escrevo melhor. Sei expressar com mais exatidão o que senti quando estava no calor do momento, ou seja, só depois de agora é que vou conseguir escrever o que sinto nesse exato momento.

Quando tudo recomeçar, e eu rever tudo o que foi escrito aqui, esse diário vai contar o que ainda sentirei. Esse é o único jeito de escrever um diário de uma nota só, sempre reescrevendo.

Coloco cada frase como uma idéia desprendida no tempo. Agora essas idéias ficam separadas no papel, antes ficavam espalhadas apenas na minha cabeça. O barulho que não pára, silencia-se, para que outro barulho surja ainda mais alto.

O esforço empregado aqui em parte é o de quebrar o pensamento linear, e em parte mostrar que só se pode pensar linearmente, mas não as duas coisas ao mesmo tempo, por isso cada frase tem sua própria dimensão. O tempo dimensiona tudo.

Reinvento um pensamento a cada frase, tudo que foi vivido tão apaixonadamente no momento em que trouxe ao mundo, cru e rude, aos poucos é repensado. Uma frase agora, outra amanhã, cada idéia no seu devido tempo. Assim, aos poucos, revivo tudo o que vivi, vendo através de lentes novas, que só o tempo fornece. Como em um ciclo finito, que como tudo que é vivo, uma hora acaba e outra hora começa.

Revivendo o que vivi, mudo também de credos, de ídolos e de desejos.

Logo que me conformo com alguns pensamentos, penso que quero outros ares, que faltou pensar em algo. Acabo mudando meu ângulo de ver as coisas, no sentido mais essencial da coisa, tento sentir o mundo cada vez mais como uma criança, vendo tudo como que pela primeira vez.

Embora escrevendo assim o texto pareça que só faça sentido na minha cabeça, no exato momento em que escrevo, ele perde o sentido temporal. Fica vivo novamente.

O diário parece ter início meio e fim, como tudo que é vivo, ele não começou e não vai acabar.

Qual o único fato fica revelado nesse diário?

Que o tempo relativiza os fatos.



Turismo LadoB
Setembro 5, 2008, 7:52 pm
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“Aventuras bizarras, destinos delirantes
” é o slogan do novo blog que estou participando, o Turismo LadoB vai fazer turismo pelas cidade mais improváveis e mostrar que mesmo no meio da pobreza, do lixo e da falta de atrações turísticas é possível se divertir com as excentricidades locais, como por exemplo, a cadela de tetas gigantes que vi em Sapucaia do Sul, acompanhem o blog que volta e meia vou postar algo.



Tinta Vermelha
Agosto 1, 2008, 11:52 am
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Sinto o gosto agridoce de meu sangue na garganta, devo ter poucos minutos, a dor física é suportável, mas não é tão grande quanto a dor implacável invadindo meu coração.

Minhas mãos tremulas são resultado da perda da minha essência, derramando-se por esse papel ordinário.

Ela me implorava perdão, mesmo assim a matei. Culpada de fato ela não era, é possível culpar alguém por não amar?
Não sei o que é ser amado, agora no fim da minha vida, ou mesmo morto, serei odiado.

De qualquer forma não me arrependo, penso, deve ter sido melhor assim, e se não foi, de que adianta agora?

Minhas ultimas palavras escrevo com tom avermelhado, meu sangue se mistura com a tinta, mal reúno forças para segurar a pena, se ainda tivesse algum sentimento bom em meu coração, creio que ele pediria para meus olhos derramarem uma última lágrima, meu corpo, mesmo que a contra gosto, compreende que uma lágrima não combina com este momento.

Saio dessa vida levando junto a vida da mulher que amei, mas não levo amor algum. Dizem que o amor e o ódio andam de mãos dadas, eis que, de mãos dadas com a morte, chego o mais perto que poderia de um amor.